O dilema da Academia versus Escola dentro do contexto da Evolução
É
sempre bom pensar sobre o nome das coisas. Por exemplo, na escola nós estudamos
Ciências durante o Ensino Fundamental e Biologia no Ensino Médio. Porém, o
curso de formação de Biólogos na grande maioria das universidades é chamado
Ciências Biológicas. Puro modismo? Ou será que há algo a mais nessa história?
Primeiro,
temos que pensar que falar em Escola (aqui referida como a instituição até o
Ensino Médio) e falar em Academia (aqui referida como Instituição de Ensino
Superior) significa falar em duas dinâmicas distintas. Não se pode esperar que
os currículos escolares sigam as mudanças e a lógica das Academias. A
sistematização do conhecimento escolar em disciplinas surgiu no século XIX, num
momento onde o parâmetro geral das ciências era a Física. Não é à toa que a
Filosofia da Ciência foi quase toda construída baseada na Física e depois
“adaptada” para as diferentes facetas das “Ciências Contemporâneas” (para saber
mais sobre isso e conhecer a verdadeira Filosofia das Ciências Biológicas,
recomendamos: Isto é Biologia, de Ernst Mayr). Vemos, então, que Ciências é uma
matéria bastante antiga e (de certa forma) bem amadurecida. E quando será que
surgiu a Biologia? Etimologicamente, podemos dizer que em 1802 com Lamarck e
Treviranus, independentemente. Mas, e como Ciência? Aí, muitos (se não todos)
destacam a importância da Evolução para unificar as Ciências Biológicas. Não
vamos aqui discutir sobre a história da Síntese Evolucionista (para uma visão
histórica, leia RANDINO, M.; SELLES, S.
& FERREIRA, M., 2009. O livro de E. Mayr também trata deste assunto).
Porém, vale lembrar que só recentemente pudemos dizer que a Evolução é uma
Ciência realmente, isso quando somado o esforço e brilhantismo de grandes
nomes, como Darwin, Huxley, Mendel, Mayr e Dobzhansky.
As
Ciências Biológicas, então, surgem assim: diversos ramos do conhecimento que
compartilhavam o estudo da vida de forma interdisciplinar e que são reunidos e
compreendidos pela Evolução. Será que é isso que devemos incluir nos currículos
didáticos? Sim. Não podemos, é claro, ficar alheios aos avanços da Ciência que
escolhemos estudar e dedicar nossa vida. Porém, não podemos subjugar o momento
escolar à dinâmica Acadêmica. A Escola tem um papel social que transcende à
transmissão do conhecimento. Não podemos ser irresponsáveis e construir uma
visão errônea das Ciências Biológicas, seja como Ciência, seja como Biologia.
Para
isso, temos que pensar na reconstrução das disciplinas. Segundo Alice Casimiro
Lopes, o currículo disciplinar pode ser encarado como uma tecnologia.
Tecnologias devem ser avaliadas, revistas e atualizadas constantemente,
correndo o risco de serem consideradas obsoletas e apagadas pelo tempo. Pensando em disciplinas escolares, vemos que
tanto no Brasil quanto no mundo o ensino de Ciências Biológicas na Escola
iniciou como várias disciplinas distintas. Posteriormente, foi chamada de História
Natural, se tornando uma única disciplina. Um marco dessa história foi a
inserção dos conteúdos de Evolução na grade escolar. Talvez em muitos casos
esse marco venha acompanhado da mudança do nome História Natural para Biologia.
Vale ressaltar que esta era (e é) uma disciplina escolar, ou seja, trás
intrinsecamente o papel social da escola como sua base.
(Talvez uma das formas mais didáticas de se
estudar o desenvolvimento das disciplinas Ciências e Biologia no âmbito escolar
seja analisar a evolução do livro didático. Partindo de um momento onde o material
era compartilhado entre Escola e Academia, muito aconteceu para chegarmos aonde
chegamos hoje.)
Daí,
voltamos ao nosso questionamento inicial: o que é Ciências Biológicas? O que é Ciência
e Biologia? Há alguma unificação nisso tudo? Bom, se há unificação, então ela
ocorre na Escola, pelo menos de modo aparente.
Falta,
muitas vezes, compreender as peculiaridades da Ciência da Vida, que é tão
diferente de todas as outras áreas do conhecimento e, ao mesmo tempo, passeia
por todas elas e trás suas contribuições em sua formação. Só entendendo essas
diferenças vamos compreender como e porque esta é uma ciência única.
Para ler mais sobre a evolução do
livro didático e outros assuntos bacanas abordados nesse texto, recomendamos: RANDINO,
M.; SELLES, S. & FERREIRA, M. Ensino de
Biologia: histórias e práticas em diferentes espaços educativos. São Paulo:
Cortez, 2009.
A temática foi muito bem trabalhada, gostei muito =) Thiago Henrique
ResponderExcluirgostei da problemática discutida sobre dá "nomes aos bois" a discussão gerada sobre iisso é de grande importância para reconhecer a unificação da biologia.
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